AFRO-HORIZONTE: OS NEGROS NA CAPITAL DAS MINAS GERAIS

 

Lídia Avelar Estanislau[1] – UFMG

 

 

Lacunas da História

 

Embora nos últimos anos as pesquisas sobre Belo Horizonte tenham se ampliado, assim como o interesse dos estudiosos e pesquisadores sobre os negros no Brasil, ainda permanece um ponto obscuro nas análises: a ausência de dados sobre os descendentes de africanos na cidade. Na capital moderna de Minas Gerais, o desafio na busca de fontes e dados capazes de permitir o conhecimento de outros tempos e de outros espaços revela-se particularmente instigante. Os estudos disponíveis sobre o século XIX chamam atenção para o fato de que em Minas Gerais, às vésperas da Lei Áurea, encontrava-se o maior contingente de escravos envolvidos não só na cafeicultura, mas também nas atividades industriais de siderurgia e têxteis. Douglas Cole Libby destaca que os dados censitários somados aos testemunhos dos viajantes, demonstram a dependência quase total do braço cativo por parte da grande maioria dos donos de fundições de ferro. Desde o início da siderurgia mineira, os escravos africanos dominavam a arte de fundir o ferro. No século XIX registra-se o absurdo: os fabricantes literalmente nada sabiam sobre os processos utilizados em suas fundições, o que segundo Libby, caracteriza um aspecto do próprio sistema escravista como expressão do desprezo do senhor pelas chamadas ocupações laboriosas. No caso da siderurgia, a produção destinava-se ao escravo-consumidor, desde as pesadas enxadas e brocas, passando por numerosos implementos da agricultura e mineração, pelos apetrechos de ferro das tropas, pelas peças usadas na construção de casas e por vários tipos de atividade artesanal, até os sinistros colares, correntes e ferros de marcar. [2]

 

Tendo se originado no século XVIII, graças ao conhecimento de escravos africanos e à escassez e altos preços do produto importado, a siderurgia comercial das pequenas fundições se firmou em Minas durante o século passado, quando uma nova fase da mineração aurífera – a escavação subterrânea – demandava implementos de ferro em quantidades crescentes. Dessa forma, a indústria do ferro evoluiu ao longo do século como uma pequena manufatura marcadamente dependente do braço escravo.[3]

 

A pesquisa de Libby evidencia, ainda, na indústria têxtil mineira do século XIX, tanto na fase doméstica como na fabril, a predominância do trabalho feminino e infantil: pessoas despossuídas dos meios para trabalhar a terra, desamparadas da comunidade e principalmente desamparadas da família, faltando-lhes os maridos ou os pais. Nos oitocentos, ao trabalho de muitas das escravas fiandeiras e tecedeiras veio se somar o trabalho do escravo de aluguel, como opção preferencial das empresas mineradoras estrangeiras. A prática do aluguel de escravos, que vigorava em Minas Gerais desde o período colonial, intensificou-se quando a compra direta inviabilizou-se legalmente. Tal prática dotou os negros escravos de mobilidade, que permitia a rápida concentração de força de trabalho onde se apresentassem melhores oportunidades de ganho. Concentração que se ampliou pela permanência dos negros forros próximos a seus amigos e parentes. A mobilidade e a concentração de escravos especializados na região do Curral del Rei, reforçam a hipótese de que a construção de Belo Horizonte, que se inicia apenas seis anos após a Lei Áurea, tenha absorvido expressiva força de trabalho negra, já que numerosos escravos foram carpinteiros, pedreiros, serradores, ferreiros, marceneiros, pintores, entalhadores nas mais diversas obras de construção civil e religiosa nos setecentos mineiro e um não reduzido número de escravos desenvolveu ou exercitou seus dotes artísticos, como registra Caio Cesar Boschi. Para o historiador, o costume de se viver às custas do aluguel de escravos, ou da exploração direta de seus serviços não foi privilégio da Capitania do Ouro pois “essa espécie de “escravos de serviços” estava presente também em outras partes da Colônia, como nos relatam os viajantes Spix e Martius, Luccock e Tollenare, dentre outros”.A pesquisa de Boschi ressalta a dispersão e a itinerância pelos núcleos urbanos mineiros dos ”ofícios vinculados às construções, à decoração e à ornamentação de templos. [4]

No recenseamento de 1872, Minas Gerais contava com um contingente de 370.479 cativos, seguida do Rio de Janeiro com 272.637 e de São Paulo com 156.612 escravos, enquanto que em todo o Nordeste – Bahia, Pernambuco, Maranhão, Alagoas, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte, a população negra somava 424.432 peças.[5]Segundo Curt Lange “uma fantástica mistura de seres se havia espalhado pelas dobras das altas montanhas, enfrentando toda a sorte de perigos e impondo a sua vontade num meio onde só prevalecia, durante anos, a lei do mais forte.” [6]

 

Da instabilidade daqueles tempos fala com toda eloquência o famoso Quilombo dos Palmares, construído por 30.000 negros fugidos das senzalas. Ajunte-se a isto o desfalque dos escravos, vendidos pelo quíntuplo dos seus preços para Minas Gerais, o gado, as ferramentas de trabalho, os produtos alimentícios. Tudo marchou para a nova terra.(...) Em 1738, Minas Gerais já tinha 300.000 habitantes; em fins do século XVIII, quando já havia entrado em franca decadência, a mineração encabeçava com 650.000 habitantes a relação das demais Capitanias, seguida de Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.(...) Havendo sido as primeiras emigrações portuguesas, até 1720, quase exclusivamente de homens solteiros, se fomentou na vastidão desse panorama montanhoso a muito tradicional tendência do português para o concubinato, preferindo-se para isso as negras. Assim, já em 1740, o número de pardos e mulatos igualava ao de brancos, população escura essa a que se deve juntar os negros, escravos e livres.[7]

 

Tal hipótese evidencia a presença histórica dos negros e desdobra-se na marcante presença do povo negro na cidade hoje, revelada pela própria memória da ocupação do território da capital mineira. A ocupação urbana ocorreu no sentido periferia-centro, indicador de que para Belo Horizonte vieram um número expressivo de trabalhadores. Nos dados do Censo de 1920 o número de operários é relativamente alto – 30,43% da PEA (População Economicamente Ativa) – evidência do processo migratório daqueles excluídos dos planos da Comissão Construtora, que projetou um Bairro de Funcionários, para aqueles transferidos de Ouro Preto, mas não planejou sequer uma vila operária. A cidade desenhada na prancheta intensificou a segregação territorial entre os trabalhadores, e para os negros sobrou, antes como agora, a ocupação da periferia insalubre e inóspita.

 

Na maioria das fazendas, os libertos recusavam-se a continuar o trabalho, preferindo deslocar-se para outras regiões. A liberdade, para eles, consistia, antes de mais nada, no direito de ir embora, de se deslocar livremente, de abandonar a lavoura, de trabalhar onde, como e quando quisessem.(...) De 1892 a 1907, a imigração visa atender à carência de mão-de-obra para a lavoura cafeeira, provocada pelo êxodo de trabalhadores para outras áreas do Estado e mesmo do país, devido à abolição do elemento escravo, ao apreciável nomadismo do mineiro e pequena fixação do estrangeiro, que não se detém no Estado. [8]

 

De acordo com a análise de Norma de Góes Monteiro o regime de propriedade da terra foi um dos fatores a concorrer para afastar o imigrante de Minas Gerais. A historiadora destaca a situação do trabalhador nacional [negros e mestiços, sem dúvida], que em toda a política colonizadora foi o grande esquecido, mas, em compensação, constituiu-se, basicamente, na força de trabalho com que contou o proprietário mineiro: foi ele quem realmente se sujeitou às imposições e explorações. Monteiro ressalta, ainda, que o número de imigrantes foi pequeno, mas o suficiente para conferir à vida regional, especialmente no trabalho, na família, na devoção e na diversão, algumas características étnicas.

 

Em Minas, a participação do imigrante se fez em grau bem menor, em razão do número relativamente pequeno de estrangeiros introduzidos e, sobretudo da limitação e rotina da economia. Sua colaboração teve algum significado no meio rural, seja como assalariado, seja como colono. No processo de industrialização, porém contribuiu de modo insignificante. (...) Os homens dedicados às construções: empreiteiros, pedreiros, marmoristas, pintores e outros eram em geral procedentes da Itália, não só convocados na edificação da nova Capital – em tradição que de certo modo se mantém até hoje em Belo Horizonte – como em outras cidades. Contribuíram para a renovação da fisionomia urbana, com novos estilos, na variedade comum do início do século, afastando a casa tradicional. Nem sempre com vantagens estéticas e ecológicas, acrescente-se. Torna-se interessante destacar que Belo Horizonte, sendo exemplo de cidade “reconhecidamente imigrantista” (afirmativa que só se justifica no plano min_iro) se caracteriza como genuína e inconfundivelmente nacional.[9]

 

Se a política imigratória e colonizadora, entre 1890 e 1930, foi tímida e sem ousadia, mas capaz de deixar as marcas dos imigrantes italianos em Belo Horizonte, os marcos do povo negro na cidade, parecem bem mais fortes. Dados levantados nos arquivos eclesiais de Mariana e Belo Horizonte evidenciam a presença majoritária de negros, escravos e forros, nas vilas e povoados. O povoado do Curral del Rei aparece no roteiro das visitações pastorais, as famosas devassas, com freqüência significativa a partir de 1734. Na Seção Colonial do Arquivo Público Mineiro há referência documental ao Quilombo do Curral del Rei, por volta de 1781. A população negra na Capitania de Minas Gerais alcançava a cifra de 664.884 pessoas – 657.590 escravos e 7.249 forros, entre 1735 e 1749. As comarcas de Mariana, Vila Rica e Sabará concentravam o maior número de negros. Segundo a documentação do Arquivo Público Mineiro, em 1808, a população negra da Vila de Sabará, que compreendia o Curral del Rei, era de 82,5%.

A história de Belo Horizonte esteve unida à de Sabará até sua emancipação em 1897, como capital de estado: o Arraial de Belo Horizonte só se desmembrou de Sabará, quando o lugar foi aprovado pelo Congresso Constituinte para ser a sede da nova capital das Minas Gerais. A partir da Lei Áurea e sobretudo das novas condições de relativa autonomia proclamadas pela República, que ao nível jurídico-político tanto carecia a Província, é criado o clima necessário para a concretização da idéia de mudar a capital. O próprio governo chegou à conclusão de que nenhum outro lugar reunia maior soma de condições do que o planalto denominado Belo Horizonte, no vale do Rio das Velhas, no município de Sabará, onde possuía o Estado considerável extensão de terras. Paralela à instalação dos núcleos coloniais agrícolas nos arredores da capital, para fixar fundamentalmente o elemento estrangeiro, o Estado desenvolveu, ainda, política de incentivo à migração interna, tendo em vista, naturalmente, o povoamento e a ocupação da área. A preocupação do Governo em localizar os operários em vilas provisórias e gratuitas, não permitindo a permanência dos mesmos em outros pontos, denuncia o critério segregativo que norteia a ocupação do espaço. A criação dessas vilas requer intervenção direta do Poder Público, em relação aos operários já localizados em “cafuas” e “favelas”, conforme relatório apresentado ao Conselho Deliberativo da Capital pelo Prefeito, Bernardo Monteiro, referente ao período de 1899-1902. A primeira Vila Operária da Capital, conhecida por Barro Preto foi criada em 1909. Cria-se, assim, em Belo Horizonte – o que virá a se tornar uma prática comum a várias legislaturas – áreas especificamente operárias, com menores exigências urbanísticas.[10] Na ocupação do território mineiro, homens e mulheres atravessaram o passa quatro, arrancharam no pouso alegre e no passa tempo, em direção às lavras, grupearas e datas, itaberuçús, ouros finos, vilas ricas e currais do rei. Nos espaços ocupados surgiram logo as capelas das Irmandades, cujas rivalidades foram sempre estimuladas pelos numerosos padres. Com a criação do Bispado de Mariana, em 1745, as Minas Gerais passaram a contar com uma estrutura ainda mais vigorosa. Em 1756, só em Vila Rica havia oitenta padres e em Sabará quarenta e dois.

No século XVIII, a devoção ao Rosário, padroeira dos negros, assim como Santa Efigênia e São Benedito, já se estabelecera na Freguesia de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral del Rei.[11] Em 1894, registra-se uma cuidadosa negociação entre o Presidente do Estado, Afonso Augusto Moreira Penna e o Bispado de Mariana, já que em virtude do decreto nº 722, para o conveniente traçado da nova cidade destinada à capital do Estado, edifícios deveriam ser demolidos no distrito de Belo Horizonte, entre os quais a Matriz da Boa Viagem e a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Em janeiro de 1895 foi aberta a concorrência pública para a execução de serviços, e entre eles, a nova Capela do Rosário, inaugurada em setembro de 1897, três meses antes da inauguração da nova capital mineira, o que evidencia a presença de muitos Irmãos do Rosário, ou seja, de muitos negros.

 

O estudo pioneiro de Fritz Teixeira Salles sobre as associações religiosas no ciclo do ouro nos expõe como a organização das irmandades, confrarias e ordens terceiras emergiram na estrutura social fortemente marcada por linhas de clivagem raciais. As irmandades se articulavam no período de formação dos primeiros arraiais quando foram construídas as capelas sob a invocação de um santo protetor. Na época da criação das paróquias, fundaram-se as irmandades dos brancos, sob as invocações do Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Pilar, e as dos negros, com as devoções de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia.[12]

 

O comandante policial transferido de Sabará para controlar os trabalhadores durante a construção de Belo Horizonte era negro, como também foram negros os capitães do mato contratados para caçar quilombolas nas Minas, desde 1715. Carlos Magno Guimarães enfatiza que o próprio escravo era utilizado para combater a rebeldia dos demais e ressalta que o exercício da profissão exigia certo nível de especialização, pelo menos em dois aspectos: a necessidade de conhecimento do problema com o qual iriam se defrontar, e a necessidade de conhecimento da área onde iriam atuar. Com relação ao primeiro aspecto, considerava-se que para o exercício da profissão, o ideal seria que o indivíduo conhecesse as artimanhas utilizadas pelos fugitivos, o que aumentaria sua eficiência, e ninguém saberia melhor captar tais sutilezas que um indivíduo que tivesse sido escravo. Daí o fato de que uma quantidade expressiva de homens-do-mato ter se constituído de egressos da condição de escravo, escreve Guimarães.

 

A categoria profissional dos homens-do-mato foi regulamentada por dois regimentos que, embora tenham sido denominados de Regimento dos capitães-do-mato na realidade, por eles estavam regidos todos os homens-do-mato independente dos postos que ocupassem na hierarquia. Do soldado-do-mato ao capitão-do-mato, estavam todos submetidos aos mesmos ordenamentos. As patentes de capitão, sargento-mor e capitão-mor-do-mato eram concedidas exclusivamente pelo Governador, e por elas os portadores pagavam a quantia de 750 réis, determinada pelo regimento dos salários e emolumentos, de 23 de abril de 1725, a não ser que o candidato ao posto comprovasse não ter condições de efetuar o pagamento. Os postos de soldado e cabo não exigiam patentes, sendo o recrutamento feito diretamente pelos profissionais de patentes superiores. [13]

 

Guimarães evidencia em sua tese que a utilização de forros e até mesmo de escravos como agentes da repressão, nas funções de feitores e homens-do-mato, foi detectada também em outros locais, constituindo, ao que tudo indica, uma prática comum no escravismo. Durante a construção da capital moderna das Minas Gerais tal procedimento manteve-se eficiente como ainda hoje – negros reprimindo negros -, pois entre os efetivos da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais é grande o número de descendentes de africanos. No período da construção, o negro Antônio Lopes de Oliveira, o temido capitão Lopes, foi nomeado a 15 de janeiro de 1895 e tomou posse a 7 de fevereiro do mesmo ano.

 

Antes, porém, dessa nomeação efetiva do capitão Lopes para subdelegado de polícia em Belo Horizonte, exercera ele as mesmas funções, em comissão, quando, delegado especial de Sabará, fora designado para prestar serviço no arraial em que acabava de ser instalada a Comissão Construtora da Nova Capital, nos primeiros meses de 1894. Foi o capitão Lopes o primeiro delegado militar e a última autoridade policial do velho arraial, homem escolhido a dedo para o período dos trabalhos da Comissão Construtora, quando para Belo Horizonte afluiu uma onda imensa de operários e pessoas do povo de todas as nacionalidades e de costumes diversos, entre os quais havia muitos vadios, malfeitores, gente sem moral. [14]

 

A chegada do Capitão Lopes para cuidar da segurança pública durante a construção de Belo Horizonte motivou Aarão Reis, chefe da Comissão Construtora, a redigir em ofício datado de 12 de novembro de 1894, recomendações a seus subordinados quanto ao destacamento policial recém chegado de Sabará, em termos particularmente eloqüentes: “só posso manter a ordem e a disciplina entre o numeroso pessoal recrutado das camadas mais ínfimas da sociedade, dando à autoridade policial local a força moral e todo o prestígio de que carece para suprir a deficiência de seus meios de ação material.[15] Ainda que lhe seja negada a condição de negro, as fotografias do capitão Lopes e do destacamento policial publicadas por Abílio Barreto registram a presença da negrura entre as forças policiais de então.[16]

 

Alto, moreno-escuro, corpulento, desempenado, calmo, voz suave, sempre risonho, muito amável, prudente, prestimoso e de uma energia férrea, com o pequeno destacamento de que dispunha e que não passaria de 10 praças, instalado com a sua delegacia em uma casinha velha sita à Rua General Deodoro, em frente ao Escritório Central da Comissão, o seu rigorismo policial fazia lembrar um Javert.(...) Assim foi que durante o período da administração Aarão Reis e na administração do Dr. Francisco Bicalho a orientação do capitão Lopes não sofreu solução de continuidade.(...) Em relação ao capitão Lopes, a sua obra gigantesca, sem a qual a dos outros não seria realizada, só ficou na memória dos que estiveram em Belo Horizonte de 1894 a 1898 e dela passaria aos pósteros apenas uma vaga tradição, talvez adulterada. [17]

 

A questão negra sempre presente na cidade, levou Edgard Nascentes Coelho, desenhista da Comissão Construtora, ao trocadilho relativo ao “pretinho Menelick” registrado por Abílio Barreto: “mas vai tudo bem. Só o que tem me desgostado ultimamente é a malandragem do pretinho, contínuo da minha seção, que deu agora para chegar tarde, deixando as mesas sem espanar, tudo sujo, atrapalhado, um inferno! Hoje reclamei, como em outros dias e ele desculpou-se dizendo que se atrasara um pouco porque estivera cantando no coro da Boa Viagem. Então o pretinho agora deu para cantar? Ora se deu... Canta e entoa...Mas veja você como está este mundo de pernas para o ar: antigamente o couro é que cantava no negro, ao passo que, hoje em dia, o negro é que canta no coro...”[18] A ignorância do desenhista da Comissão Construtora sobre o talento musical dos negros mineiros só viria a público quando, no final de 1944, o arquiteto, filósofo e musicólogo alemão Curt Lange assombrou o mundo, após seu próprio assombro, com a Escola de Compositores da Capitania Geral das Minas Gerais. Entre a corrida do ouro e o esgotamento das minas o território foi ocupado por gente de toda espécie: lavradores, fazendeiros, comerciantes, funcionários, operários dedicados aos diversos ofícios, artesãos, artistas, um clero considerável e um grande número de músicos, que nas palavras de Curt Lange, com base em documentos sobre a presença da música erudita desde os primórdios do povoamento, esta migração produziu-se, indiscutivelmente, nos primeiros dez ou quinze anos, talvez ainda mais cedo, “pisando os músicos virtualmente os calcanhares dos mineradores.”[19] A importância dos afro-descendentes na música mineira é ressaltada por Lange, já que os mulatos (sic) se dedicavam apaixonadamente ao exercício livre da música como verdadeiros profissionais e foram os responsáveis pelo crescente desenvolvimento de uma arte musical, que nos anos 1787-1790, chegou a um apogeu sem limites. O número deles deve ter sido aproximadamente de mil ou ainda maior, porque só em Vila Rica, “segundo a documentação ainda disponível, mas incompleta”, foram identificados 250 músicos profissionais. Em outras vilas importantes como São José del Rei (Tiradentes), Caeté, Sabará, Pitangui, Itabira, Itabirito, Morro Grande, Paracatú, Conceição do Mato Dentro, Serro Frio, Santa Luzia do Rio das Velhas, Santa Bárbara e mesmo em povoações nascentes como Barbacena, Queluz e no Arraial do Tejuco, o número de músicos sempre superava a cifra de 150.[20]

 

A estabilização social nos povoados mineiros, graças ao sentido organizador da administração portuguesa e à ação moralizadora da Igreja, foi acompanhada durante um período relativamente breve pelo crescimento cada vez maior da classe de mulatos, produtos de mestiçagem, que rapidamente ultrapassou, mais ou menos em 1740, a dos brancos. Este fato teve a sua origem na ausência de mulheres brancas, devido à periculosidade daquele meio, no enorme fluxo de negros escravos como braceiros no processo de mineração, no concubinato dos brancos com as pretas e mulatas, na imposição violenta dos recursos econômicos sobre a frágil estrutura social – muito diferente da do Reino – e, finalmente, em percentagem menor, na vinda de negros e mulatos de outras regiões do Brasil. Este processo de mestiçagem é único na história social do Brasil e não admite comparação com a formação de nenhuma das outras Capitanias anteriormente estabelecidas. O mulatismo em Minas Gerais ressalta por cima de qualquer outra região brasileira pela rápida ocupação, por parte dos seus integrantes, das funções reservadas à gente branca. O que aconteceu no Nordeste brasileiro em longo convívio, quase de séculos, em Minas foi questão de poucos decênios. Patriarcado nordestino e mineração nas Gerais representam, na formação social do Brasil, processos antagônicos. O mulato de Minas, a procura de uma posição independente na nova sociedade, achou a válvula para a sua emancipação no comercio, no cultivo da terra e na criação de gado, nos ofícios e nas artes. Um caso não só curioso, mas sobremaneira notável, foi a sua decidida inclinação, para não dizer propensão, para a música popular e culta, e singularmente para esta última.”[21]

 

Tal situação fica evidenciada quando o arquiteto português Alfredo Camarate, doublé de músico e cronista organizou em Belo Horizonte a Sociedade Musical Carlos Gomes, em 1896, antes mesmo da inauguração oficial da nova capital. O concerto de estreia ocorreu na antiga Capela do Rosário, com repertório erudito. No acervo fotográfico da Sociedade Musical Carlos Gomes permanece a presença majoritária de negros, em suas diferentes formações, como orquestra e banda. Em 1894, Alfredo Camarate descreveu sua primeira imagem de Belo Horizonte ocupada por cubatas (choças formada de folhas; habitação dos pretos africanos), aproximando a paisagem do povoado mineiro com a paisagem de povoados em África.

 

Ao cabo de quatro horas de viagem, muito parecida com as que devem fazer as tartarugas, divisamos a povoação de Belo Horizonte, incrustada numa mata verde-negra e densíssima dentre a qual emergiam os campanários da igreja, construída nas primitivas simplicidades da arquitetura.(...) Enveredamos por uma rua extensíssima, muito larga, muito parecida com alguns caminhos de certas povoações da África Ocidental. Umas casas muito humildes com aparência de cubatas e, nos intervalos das casas, longos muros de barro vermelho assombreados por árvores frutíferas. Mas tudo aquilo muito limpo e muito alinhado e sempre da mesma forma, e com o mesmo encanto se chega a Belo Horizonte.[22]

 

A par dos acertos e equívocos de obras na perspectiva de Casa Grande e Senzala ou, no sentido inverso, de Formação do Brasil Contemporâneo, a descoberta dos músicos “mulatos”, entretanto, foi considerada como prova do caráter harmônico da sociedade mineira do século XVIII.[23] E quando tais músicos passaram a ser nomeados por pesquisadores e intelectuais, houve uma sistemática (ou sintomática?) omissão da ascendência africana. As pesquisas subsequentes de Curt Lange, nos anos 70, revelaram a grande presença de negros, designados no Livro de Entradas na Irmandade de Nossa Senhora das Mercês como: Agory, Ayonô, Barbá, Benguela, Kabunda, Kamundonga,[24] Xambá, Kobu, Congo, Gomé, Grumá, Lada, Malê, Mina Agonim, Magumba, Megumbe, Mogumbe, Monjolo, Maguê, Moçambique, Rebolla, Saburu, Songo, Tapa, Timbu, Ueme, Mina, Angola e Nagô, os três últimos citados com maior freqüência, ao lado de indicações como preto, ou preto de Luanda, crioulo, pardo e cabra. O extraordinário compositor barroco José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, ”a 25 de janeiro de 1788, entrou para a Irmandade Nossa Senhora das Mercês, do Arraial do Tejuco, obrigando-se a respeitar os Estatutos dessa confraria de laicos, constituída por gente de cor que a si mesmo se classificava de “homens crioulos”. Curt Lange destaca que “era hábito de escravos, enjeitados ou expostos, tomar sobrenomes dos seus proprietários ou educadores, sendo portanto extremamente difícil penetrar no emaranhado tecido genealógico mineiro, em que houve adoções, misturas as mais inverossímeis e, principalmente misturas entre brancos e pretos.” [25]

 

Afro- Horizonte: Os negros na construção da cidade

 

Embora a bibliografia disponível sobre os trabalhadores em Belo Horizonte seja pequena, alguns estudos pioneiros comprovam a presença dos negros, assim como já registram as primeiras mobilizações de classe na histórica rua da Bahia, tombada como patrimônio cultural da cidade em 1994. Yonne de Souza Grossi e Maria Auxiliadora Faria ressaltam: “no que respeita a relações de trabalho, os operários de Belo Horizonte não dispunham, como os do resto do País, de canais institucionalizados para a solução de seus problemas. Também aqui o problema era entregue às Delegacias Policiais. O exame das fontes não autoriza dizer que o operário belo-horizontino contava com a orientação de pessoal qualificado, através de suas associações.”[26] Para Grossi e Faria:

 

Os acontecimentos de 1912 significaram, porém, uma mudança na natureza do movimento operário, embora a composição permanecesse quase a mesma. (...) Cinco dias após as comemorações do 1º de Maio, instaurou-se na Capital um conflito coletivo de trabalho, em sua expressão máxima – a greve. Começou através dos operários da Prefeitura, com adesão posterior de outros setores e a participação de 2.000 trabalhadores. Pela manhã do dia 6 de maio, os operários que “faziam o calçamento entre as linhas de bondes na Rua da Bahia” abandonaram o trabalho logo após o seu início, declarando-se em “parede” até que fossem atendidas duas reivindicações específicas: diminuição da jornada de trabalho para oito horas e fixação do salário correspondente.(...) A agitação provocada pelos grevistas ao paralisarem o trabalho e os” gritos de protesto” atraíram a atenção de operários que trabalhavam nas proximidades. Em grupo, 40 operários subiram a rua agitando e concitando seus companheiros a aderir à greve. A partir desse momento, novos contingentes operários se incorporaram. Portando uma bandeira, percorreram várias ruas. ”Chegaram às Oficinas dos Srs. Paiva & Pinto”, de 200 operários e conclamaram os companheiros, que declaram-se em greve(...) A paralisação do trabalho durante nove dias, com a participação de aproximadamente 40% do operariado da Capital representou uma experiência social significativa e serviu de base à mobilização de classe. [27]

 

Planejar e construir uma capital, dentro do prazo de apenas 4 anos, exigiu um grande número de operários, com maior ou menor qualificação, e que começam a ser percebidos, ainda que tardiamente, como construtores da geografia urbana de Belo Horizonte. No final do século XIX o setor da construção civil já aprimorara suas técnicas construtivas, entretanto, “apesar dessas inovações, o século XX desponta com resquícios de uma sociedade dominada pelo modo de produção escravista.”[28] Segundo pesquisa de Eliana de Freitas Dutra “a indústria da construção civil em Belo Horizonte, ramo que devido à construção da cidade, abrigava um volume grande de trabalhadores, será marcada pela sua ligação com a Prefeitura e o Estado, os grandes empregadores de então. Assim, embora concentrados na cidade, os operários não se caracterizarão pela força e capacidade organizatórias embora cultivassem um “espírito corporativo militante” e apresentassem um nível cultural acima das outras categorias, com qualificação profissional e conhecimentos de escultura, modelagem, desenho geométrico e arquitetura. Dutra registra que “no caso de Belo Horizonte, estes trabalhadores apesar de precursores do movimento associativo (Liga Operária, 1901) e da luta pela jornada de oito horas (1912), estiveram silenciosos em sua combatividade nos anos seguintes.[29]

 

Os prejuízos advindos da ação do Estado, no caso belo-horizontino, sobre a classe operária da cidade se manifestaram desde a fundação da cidade de forma bem concreta. Na divisão do espaço urbano, quando a cidade foi planejada, a classe operária foi isolada numa área que lhe foi destinada fora do perímetro urbano.(...) No caso em análise, a incidência da prática tutelar evidenciou-se como um obstáculo poderoso no percurso da construção de sua identidade.(...) A ocorrência de movimentos grevistas em Minas Gerais datam de 1917, em sua quase totalidade. Antes desta data os registros apontam greve dos operários da construção civil em Belo Horizonte, estendendo-se a outros ramos de atividade, em maio e agosto de 1912.(...) Ocorrem apenas três movimentos grevistas em Belo Horizonte, entre 1917/1930, sendo eles de pequenas proporções. Em 1919, os trabalhadores do Ramal da Estrada de Ferro paralisam suas atividades por aumento de salário e são atacados pela Polícia(...). Em 1926, é a vez dos barbeiros da capital, que fazem um greve pacífica, exigindo aumento de salário, fechamento das portas às oito horas da noite e criação de uma caixa beneficente para os casos de doença e falecimentos.(...) Em 1927, os choferes de praça da cidade entram em greve durante dois dias em protesto pela prisão de um motorista, que reclamou de multa recebida.” [30]

 

Oficialmente inaugurada em 1897, Belo Horizonte permaneceu em construção até meados dos anos 10 do século XX, e na década seguinte, a vida cultural da cidade ganhou impulso, respectivamente em 1922, com a inauguração da Estrada de Ferro; em 1924, com a visita da Caravana Paulista; em 1925, com o lançamento de A Revista, do grupo de Carlos Drummond de Andrade; em 1927, com a criação da Universidade de Minas Gerais pela agregação das escolas de Direito, Medicina, Engenharia, Odontologia e Farmácia; em 1929 com a publicação de Leite Criôlo.[31] Gilberto Mendonça Teles observa que “O jornal Leite Criôlo, de Belo Horizonte, cujo primeiro número saiu em 13 de maio de 1929, constitui dentro das aberturas do modernismo uma das primeiras preocupações com o negro, preocupação aliás que não fica muito clara, se contra ou a favor. [32] A edição de Leite Criôlo, quaisquer que sejam as análises de seus diretores ou críticos alguns anos mais tarde, apoia também a hipótese da forte presença negra em Belo Horizonte, pois pretendeu combater a “antropofagia paulista com uma vacina africana: bantu.[33] Em sua análise sobre o modernismo das letras mineiras nos anos 20, Antônio Sérgio Bueno sublinha:

 

Surpreende-nos o esquecimento a que foi relegado o Leite Criôlo, porque creditamos a esses textos uma importância singular para o Modernismo de Minas Gerais. Pelo que pudemos pesquisar, são dezesseis números – de 2 de junho a 29 de setembro de 1929 – publicados com alguma regularidade cronológica, antecedidos por um tablóide de 13 de maio de 1929, data simbólica porque marca o aniversário da promulgação da Lei Áurea.(...) Realmente o Leite Criôlo quebrou o silêncio em torno do negro (...) e antecipou vários dados para a reflexão que a inteligência nacional empreenderia, a partir de 1930, sobre a presença negra na vida e na cultura brasileiras.(...) O problema racial só foi tratado sob o invólucro científico quando houve necessidade de mão-de-obra livre nas regiões economicamente pioneiras, depois da abolição da escravatura.(...)Não é nosso propósito aprofundar a análise do racismo “científico” europeu no século XIX, mas vamos assinalar de passagem seus traços básicos, alguns dos quais se acomodarão no espaço de Leite Criôlo.(...)Vemos no discurso médico da segunda metade do século XIX, uma das matrizes ideológicas do Leite Criôlo.(...) Talvez possamos afirmar que o Leite Criôlo é uma espécie de ovelha negra do modernismo mineiro. Transforma-se, ele próprio, em um excremento das letras montanhesas não pelo fato de trazer o crioulo para o centro de suas considerações, como para transformá-lo em bode expiatório de uma elite que não reconhecia o timbre da própria voz. [34]

 

Antônio Sérgio Bueno ressalta que o racismo e as manifestações preconceituosas são tão fortes em Leite Criôlo, que somos ainda tratados como se vivêssemos sob o escravismo. Curt Lange já observara que “o mulato, produto da união entre português e africana era um europeu em sua língua, religião, hábitos e mentalidade. Em pouco tempo escalou altos postos da administração e por mais que protestasse Lisboa ou algum português de “boa linhagem” radicado em Minas Gerais, não havia maneira de se deter a corrente centrífuga do melting-pot brasileiro, porque as posições se firmaram de acordo com os recursos materiais de cada um, encarando a intensidade da cor de acordo com a conveniência.”[35]

 

Uma história a contrapelo

 

O silêncio e a invisibilidade dos negros na cidade foram ocasionalmente quebrados, mas há muito a ser pesquisado ainda. Os mitos de origem e os mitos de dispersão dos descendentes de africanos em Belo Horizonte, particularmente nas comunidades-terreiro de nação angola e nos congados, podem contribuir para a escrita da história e, consequentemente, para a geografia dos afro-belorizontinos. Na teoria benjaminiana da memória, histórias e biografias se fundem na paisagem urbana. Tanto nas teses sobre o conceito da história, como em vários outros textos, Walter Benjamin constrói imagens eloqüentes:

 

Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado tem que proceder como um homem que cava. Antes de tudo não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalha-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como se revolve o solo. Pois fatos nada são além de camadas que apenas à exploração mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escavação.(...) E, sem dúvida, para ter sucesso nas escavações, é preciso um plano. Mas é igualmente indispensável a enxada cautelosa e experimental na terra escura. E se ilude, privando-se do melhor, quem só faz o inventário dos achados e não sabe assinalar no terreno de hoje o lugar no qual é conservado o velho.[36]

 

Nunca é demais reiterar que a queima de arquivos promovida por Rui Barbosa não destruiu completamente a documentação sobre a migração forçada de africanos para o Brasil. Os pesquisadores que se debruçam sobre a desinformação e a censura no tratamento das questões do negro no Brasil, registram que ficou abandonada pela historiografia toda a fermentação social que caracterizou os anos 80 do século XIX.

 

A rebeldia escrava, ao longo dos anos 80, mostrou-se especialmente assustadora em todas as regiões em que a concentração de escravos tornava expressiva esta camada da população.(...) Apenas um cuidadoso trabalho de reconstituição documental, onde o savoir-faire do historiador, mescla-se com o detetive dos romances policiais, permite o resgate de movimentos que, embora varridos para debaixo do tapete de uma história bem comportada, aí estão a nos desafiar. [37]

 

Assim, em Belo Horizonte, como em todo o Brasil, há os que reduzem a cultura negra somente às manifestações artesanais. Há os que a tratam como uma expressão secundária, sem influência sobre a vida e o pensamento das pessoas. Há os que a consideram meramente como folclore, desconsiderando a visão de mundo que a sustenta e a partir da qual foram construídas alternativas políticas contrárias aos interesses das elites. Nas rodas de capoeira angola, nos congados, nas centenas de comunidades-terreiro espalhadas por toda a cidade afirma-se um Afro-Horizonte. A ocupação urbana, na perspectiva afro-brasileira, é antes polis do que urb, e na construção democrática da cidade nós negros ocupamos um contra-lugar.[38] Buscar os fios dessa trama – o penhor dessa igualdade – implica, necessariamente, um novo olhar sobre a cidade. Núbia Pereira de Magalhães Gomes e Edimilson de Almeida Pereira buscaram “chamar para o centro da página onde se escreve a História os elementos relegados à estreiteza das margens, espaço intencionalmente elaborado pelos grupos dominantes como forma de evitar contestações às suas investidas.” [39] Núbia e Edimilson ressaltam que “não se justifica nenhum pudor no tratamento desses fatos, de vez que a trajetória do negro no Brasil é a demonstração de uma resistência que não esconde a dilaceração sofrida no passado e não cauterizada de todo no presente”. Na pesquisa que desenvolveram a investigação documental mostrou-se de extrema validade apesar do caráter fragmentário das informações obtidas, em especial quanto ao negro escravo como articulador de seu próprio discurso, e os pesquisadores enfatizam:

 

Em outras palavras, para chamar ao centro da página a voz dos escravizados temos de realizar uma verdadeira pesquisa arqueológica – como sugere Le Goff – no sentido de resgatar fragmentos da história material e psicológica do escravo, relegados pela historiografia oficial.(...) Em contraposição à suposta suavidade de nosso sistema escravista depõem os registros cartoriais, o testemunho dos viajantes estrangeiros e a existência degradada do escravo, colocando o fato histórico acima das interpretações tendenciosas dos historiadores.(...) Estando, pois, no centro da página, o negro escravo e seus descendentes assumem não a postura unilateral do senhor, mas a postura dialética do oprimido que considera a força repressiva como integrante de sua realidade, na perspectiva de que, conhecendo-a, poderá superá-la. Essa prática de conhecimento da própria história situa o negro brasileiro no passado, desde a diáspora africana, atravessando a imposição escravista até a atualidade, quando se dá a conscientização mais ampla da violência sofrida.(...) Como o escravismo brasileiro não foi avaliado em sua amplitude, ainda hoje é bastante complexa a situação do negro: colocado ontem como escravo, contemporaneamente ocupa os interstícios da vida social.[40]

 

A questão dos negros em Belo Horizonte parece carecer, também, de status acadêmico. Em 1981, por exemplo, em minha dissertação de mestrado não considerei a questão na pesquisa com as formiguinhas, as garis de Belo Horizonte, categoria profissional com expressivo número de mulheres negras. A professora Yonne de Souza Grossi, do Departamento de Sociologia da PUC MINAS, em seus estudos e pesquisas sobre a classe operária, em Belo Horizonte e em Nova Lima, também não classificou os trabalhadores segundo a cor, mas com a delicadeza que lhe é peculiar me forneceu os seguintes dados: dos 164 trabalhadores por ela entrevistados para a sua tese de mestrado – operários na ativa ou que trabalharam na Mina Morro Velho entre 1930 e 1964 – 70% eram mestiços: “morenos”, ”pardos” e “mulatos”. Mais ainda, (as fotos falam por si), são negros três dos principais líderes do movimento operário de Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. William Dias Gomes, vereador e membro do Comitê Estadual do PCB, assassinado em 1948. Lambari – “tão negro que luzia” – assassinado no início dos anos 50.Encarregado de organizar a parte feminina da classe operária, Lambari só não pariu e amamentou, pois executavacomperfeição todas as tarefas ditas femininas: cozinhar, costurar, bordar, tricotar, lavar, passar, à semelhança da aprendizagem de iniciação ao candomblé. E José Gomes Pimenta, o Dazinho, presidente do Sindicato dos Mineiros 1961/1962, eleito deputado estadual, em 1962, preso político a partir de 1964, e candidato a senador pelo PT/MG. [41]

Desse modo, o trabalho de identificar, documentar, proteger e promover o patrimônio cultural de Belo Horizonte não pôde mais ignorar os marcos da resistência negra na cidade e assim a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, e o Ilê Wopo Olojukan, no Bairro Aarão Reis, estão protegidos por tombamento municipal desde 1995. A cidade conta hoje, também, com a escultura – Liberdade e Resistência – do artista plástico Jorge dos Anjos, um marco definitivo no tecido urbano da cidade, plantada no início da Brasil, uma avenida cujo traçado termina na Liberdade (a praça). Em 1997, Leda Maria Martins publicou Afrografias da memória: o reinado do Rosário no Jatobá, texto magnífico que contextualiza a nossa história, ”na linhagem constitutiva dos Reinados negros, visando ressaltar a extensão dos rizomas que reterritorializam e transcriam as culturas africanas na cartografia da nação brasileira.”[42] Leda Maria Martins confere tratamento primoroso pois insere os fundamentos do congado enquanto memória e demonstra a sua presença marcante na cultura mineira e belo horizontina, reiterando sua importância para os estudos culturais na perspectiva das questões discutidas pelo grupo Subaltern Studies, criado na Índia nos anos 80.

 

De março, quando em geral os rosários são abertos, até fins de outubro, quando então os Reinos se recolhem e se feccham, os tambores cantam em Minas e guiam pelas ruelas e pelso asfaltos, pelas capelas e igrejas do Rosário, pelos quintais, as nações do Congo que, com seus reis e rainhas, seua capitães e seus marinheiros, rematizam a África em terras d’América. Como estiletes autografando as abissais desfronteiras e deslimites simbólico-geográficos dessas serras gerais, Congos, Moçambiques, Catupés, Candombes, Vilões, Caboclos, na sua variedade rítmica, cromática e cenográfica, performam cânticos, gestos, ritmos e falas, como aedos e griots que imbricam a história e a memória, posfaciando o discurso cultural brasileiro com os prefácios africanos. Estes festejos reatulizam todo um saber filosófico bantu, para quem a força vital se recria no movimento que mantem ligados o presente e o passado, o descendente e seus antepassados, num gesto sagrado que funda a própria existência da comunidade.[43]

 

Todas essas evidências me permitem afirmar que em Belo Horizonte somos mesmo muitos, ainda que insistam em nos dividir numa longa escala cromática: escurinho, pretinho, moreninho, roxinho, queimadinho, mulato, pardo, moreno, marron, azul, preto. Esta divisão presente nas estatísticas oficiais que ainda nos classificam como pretos e pardos, desconsidera o termo negro consagrado pelo pensamento social brasileiro para nos designar [44] e produz a sensação de não existir, para usar uma expressão da historiadora Beatriz Nascimento Gomes, assassinada no Rio de Janeiro, em 1994. Os estudos culturais e as teorias pós-coloniais tem enfatizado o direito à diferença, como assinala Homi K. Bhabha:

 

A tentativa de pensar a diferença cultural como algo oposto à diversidade provém da compreensão de que, através da própria tradição liberal – particularmente no relativismo filosófico e algumas formas de antropologia – a idéia de que as culturas são diversas, e de que em certo sentido a diversidade de culturas é uma coisa boa e positiva que deve ser incentivada, já é conhecida há muito tempo. É um lugar comum das sociedade pluralistas e democráticas, dizer que elas podem incentivar e acomodar a diversidade cultural. [45]

 

Bhabha sublinha, entretanto, que “nas sociedades onde o multiculturalismo é incentivado o racismo se alastra de várias formas. E isso porque o universalismo que, paradoxalmente, permite a diversidade mascara normas, valores e interesses etnocêntricos.“ O teórico indo-britânico problematiza alguns conceitos muito em voga:

 

Minha tentativa de falar de diferença cultural, mais que de diversidade cultural, é reconhecer que esse tipo de perspectiva liberal relativista é inadequado em si mesmo. É isso o que pretendo dizer quando me refiro à criação da diferença cultural e à contenção da diversidade cultural.(...) Como disse recentemente Nelson Mandella, mesmo quando há uma guerra é preciso negociar. Negociamos até mesmo sem saber que o fazemos. Estamos sempre negociando em qualquer situação de antagonismo ou oposição política. Subversão é negociação; transgressão é negociação; negociação não é só essa espécie de compromisso ou de “venda de estoque” que irrefletidamente muitos acham que é. [46]

 

A permanente construção deste Afro-Horizonte é, então, perseguida pelas questões da identidade e da cidadania, e percebida pela (re)territorialização, conceitos e relações que têm se constituído, nesses tempos de globalização, como um dos temas privilegiados da reflexão. Foi preciso que Belo Horizonte vivesse um século para que estas questões se inscrevessem no universo temático do patrimônio cultural da cidade. Sob a influência de Habermas, no âmbito das Ciências Sociais, a teoria mais contemporânea desconfia dos sujeitos universais e abre espaço de discussão no debate luso-afro-brasileiro, com parâmetros que fazem emergir identidades parciais e sujeitos fragmentados.[47]

 

Habermas tem se voltado, através de um amplo e desafiador trabalho, que se estende por trinta anos, para o desenvolvimento de um modelo de “ação comunicativa”, um esquema ético baseado nos princípios da razão, da justiça e da democracia, mas sem correr o risco de alienar ou silenciar vozes minoritárias, aparentemente aberrantes dentro de formas falsas ou opresssivas de consenso. Dai o foco da filosofia de Habermas na comunicação livre e não distorcida com o fundamento da justiça. Habermas procura descobrir bases ou garantias para a multiplicidade de interesses concorrentes em qualquer situação, em vez de simplesmente confiar na boa vontade e no auto-interesse esclarecido. Ao buscar essas formas de legitimação, Habermas dá prosseguimento à moderna pesquisa de uma ética social baseada na razão .[48]

 

Novas possibilidades de trabalho e investigação passam a depender do compromisso do cientista social em captar a vida coletiva da e na cidade, através da leitura das entrelinhas e dos entre-lugares, nesta Belo Horizonte, síntese das minas e dos gerais, capital mitológica da mineiridade.

 

Os políticos mineiros mobilizaram a memória do passado no exercício de suas ações, enquanto legítimos porta-vozes de uma história transformada em tradição inquestionável. A memória do passado imiscuiu-se em suas práticas, estas sim de feitio claramente ideológico. Os memorialistas, por seu turno, oferecem poderosos contributos à nutrição do imaginário mineiro. Os próprios discursos políticos transitam no interior da memorialística, visto que a lembrança dos feitos passados pressupõe. Também os escritores mineiros, fortemente amarrados à sua origem, exprimem esse profundo apego à memória de Minas.[49]

 

Maria do Nascimento Arruda enfatiza que a longa agonia da mineração adentra o século XIX e a mineiridade busca reviver imaginariamente o ideal nobre que exprime a vontade de preservar um passado percebido apenas nas suas centelhas luminosas. A recorrência faz-se necessária, como configuração do núcleo original dos mineiros, escreve Arruda, pois a “confraria mineira” nutriu-se do passado da sua província, “alçando-o aos altos píncaros de uma história grandemente construída em todas as suas partes”: do período minerador extrovertido e dinâmico, à introversão social e a lentidão do tempo vivenciada nos séculos seguintes. As ações tecidas no passado reverberaram, pois, nos atos do presente, abrindo espaço para o nascimento da memória de Minas. No caso dos afro-descendentes, o desejo de recompor essa memória tem guiado as reflexões e, assim como fez Arruda, temos construído e analisado a história de Belo Horizonte movidos pela procura e pela descoberta, ou melhor, pela autodescoberta, sem qualquer receio de sucumbir na sedução do tema, porque aqui a questão dos negros está diretamente ligada à construção da cidadania.

Félix Guattari chama atenção para o fato de que a natureza precisa ser cuidada ou não sobreviverá, e o mesmo acontece com o urbano. Portanto os urbanistas não poderão mais se contentar em definir a cidade em termos de espacialidade. [50]

 

O homem contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado. Com isso quero dizer que seus territórios etológicos originários – corpo, clã, aldeia, culto, corporação... – não estão mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se encrustam, no essencial, em universos invisíveis. A subjetividade entrou no reino de um nomadismo generalizado (...) A terra natal está perdida, mas os seres humanos podem desejar reconstruir um elo particular com o universo e com a vida. Isso significa que eles podem se “recompor” em sua singularidade, individual e coletivamente.(...) A restauração da paisagem urbana compromete os níveis mais individuais de subjetividade, ao lado daqueles mais coletivos.(...) Diz respeito ao futuro do planeta e da bioesfera: ao reconhecimento da finalidade da atividade humana e à reivindicação de um nomadismo existencial tão intenso quanto aquele dos índios da América pré-colombiana!. [51]

 

A ocupação do território, nas dimensões coletiva e individual, pode dar-se como espaço interativo ou como espaço segregativo para os diferentes grupos e classes sociais em luta por direitos, direitos humanos inclusive. E todos nós, cuja cor nos tornou socialmente invisíveis em Belo Horizonte, já experimentamos na pele o desconforto causado pela contração do espaço pessoal e social.

 

Essa dificuldade costuma manifesta-se na teoria cultural pós-moderna nos termos metafórico-topográficos de espaço e território, na imagem do centro e da margem, do interior e do exterior, da posição e da fronteira. Esse sistema de metáforas pode evocar um mapa de aparência estranhamente antiga do mundo e das relações políticas globais(...) Em sua imitação dessa fácil mas apagada territorialização das relações de poder, essas metáforas também parecem conter uma nostalgia daquilo que se perdeu com essa espécie de mapa do mundo.(...) O problema da teoria cultural pós-moderna é construir um mapa do mundo a partir de dentro desse mundo.(...) Jameson sugere que um mapa pós-moderno do mundo tem de fazer duas coisas contraditórias de uma só vez, traduzir o sentido de deslocalização ao mesmo tempo que sugere maneiras de nos orientarmos com relação a essa deslocalização. [52]

 

A noção de território compreende tanto o espaço particular do corpo próprio, como o espaço coletivo da casa, do trabalho, da diversão e da devoção. Território, na dimensão coletiva, é o espaço da cidade, com suas ruas, praças, transporte coletivo e demais equipamentos urbanos como teatros, cinemas, bares, restaurantes, casas de baile, hospitais, escolas, centros culturais, áreas verdes e lugares do sagrado. Território, na dimensão individual, é o espaço pessoal que acompanha todo e qualquer ser humano, caracterizado pela capacidade do corpo próprio expandir-se e contrair-se conforme o contexto. O modo como percebemos, estruturamos e usamos o espaço urbano não pode mais ser desconsiderado em Belo Horizonte.[53]

Após a Lei Áurea e proclamada a República, as ideologias, que buscavam legitimar a dominação do espaço belo-horizontino pelas novas forças econômicas em luta pelo poder político[54] nos reuniram sob o signo da vadiagem.[55]Advogava-se, então, não só a imigração de trabalhadores europeus como a deportação de negros para a África. Identidade e cidadania, estes parecem ser os termos da equação que ainda hoje nos condiciona. A nossa cidadania refere-se apenas ao fato de que habitamos a cidade? Ou gozamos dos direitos civis e políticos, e em conseqüência temos deveres a desempenhar na construção de uma cidade livre, igualitária e fraterna, como um dia o povo negro vivenciou nos quilombos? Já é tempo dos políticos sentirem que nossa força cultural é também política.

Na Capital do Século nossa representação é quantitativamente insuficiente e qualitativamente inexpressiva. Nesta cidade não há pré-história. Tampouco há história. O que há, como houve, são histórias. Outras histórias. Muitas histórias. Também por isso, Milton Nascimento é o personagem central do emocionante depoimento de Márcio Borges, seu primeiro parceiro: “é que o nosso passado não é de modo algum uma sucessão rígida de eventos guardados e cristalizados numa ordem, mas constitui matéria tão fluída, dispersa e inexistente como nosso próprio futuro, talvez até mais.[56]

Nos planos urbanos da Comissão Construtora não houve espaço para os trabalhadores, em especial para aqueles por séculos expropriados de sua força de trabalho e de sua força vital. Quase cem anos depois, é que as pesquisas acadêmicas registram a participação dos trabalhadores na construção da cidade e alguns estudiosos da cultura negra, a maior parte fora da academia, começam a se debruçar sobre Belo Horizonte porque aqui, ao lado dos ítalo-brasileiros, dos luso-brasileiros, dos hispano-brasileiros, dos franco-brasileiros, se afirmam cada vez mais, os afro-brasileiros.

 

Belo Horizonte parece buscar uma nova (pós?) modernidade, novas visões, novas lógicas, amplas e ambíguas o suficiente para abarcar a tradição e o (pós) moderno, o local e o internacional, o interior e a capital, trocas próximas e distantes. São novas identidades que parecem estar pedindo para se constituírem, virtualidades a se concretizarem a nossos olhos, história sendo escrita na geografia, tempo-espaço em construção contemporânea. [57]

 

Ao pesquisar a metamorfose deste espaço belohorizonte, tanto no eixo das sucessões (tempo histórico), quanto no eixo das simultaneidades (tempo geográfico), constata-se a construção da paisagem urbana cujos fixos e fluxos – na linha das contribuições do professor doutor Milton Santos – se dão em um contexto sócio-cultural.[58] Tal contexto, embora planejado conforme uma racionalidade positivista, caiu fora da moldura, extrapolou a prancheta e produziu um Afro-Horizonte, mas ainda é preciso preencher lacunas sobre a construção da capital mineira, no passado e no presente. Não se trata aqui de uma redução sociológica, nem da exaltação eufórica de uma africanidade perdida, pois como destaca Stuart Hall “a “África” original não se encontra mais lá, foi transformada, e se o processo histórico é irreversível, restam uma história e uma geografia imaginativas:

 

Silenciada aparentemente além da memória pela força da experiência da escravidão, a África, na realidade, fez-se presente em toda parte: na vida cotidiana e costumes das senzalas, nas línguas e linguajares da grande lavoura, em nomes e palavras freqüentemente desconectados de suas taxinomias, nas misteriosas estruturas sintáticas através da quais eram faladas outras línguas, nos contos e histórias narrados às crianças, nas crenças e práticas religiosas, na vida espiritual, nas artes e artesanato, nas músicas e rítmos da sociedade escravista e pró-emancipação. África, o significado que não podia ser representado diretamente na escravidão, manteve-se e se mantém como “presença” não dita e indizível na cultura (...). Está “oculta” por trás de cada inflexão verbal, de cada jogo narrativo da vida cultural. É o código secreto com o qual foram “re-lidos” todos os textos ocidentais. É a base de cada ritmo e cada movimento do corpo.(...) A presença/ausência da África, desta forma, foi que a tornou o significante privilegiado de novas concepções de identidade.(...) África como a re-contamos através da política, da memória e do desejo. [59]

 

Sem história não há geografia possível. Entretanto, a auto-segregação num gueto particularista nos conduziria apenas a um outro ponto de vista. As pesquisas devem buscar análises descentradas [60], para que outros espaços e outros tempos possam se dar a conhecer no urbano, ao se (re)conhecer a participação dos negros na construção da cidade. Em Belo Horizonte os negros pretendem um lugar cuja centralidade a demografia desconsidera, referindo-se genericamente ao “corredor migratório da pobreza”, cuja cor da pele, é majoritariamente negra. O sociólogo Fausto Brito assinala que “apesar do razoável crescimento da economia mineira nas últimas três décadas, principalmente nos anos 70, Minas continuou se caracterizando pela intensidade das migrações – um verdadeiro povo em movimento”:

 

Um dos resultados mais interessantes revelados pelo Censo Demográfico de 1991 foi a acentuada desaceleração do crescimento populacional das grandes capitais, núcleos das chamadas Regiões Metropolitanas (RMs). Ao contrário da previsão de muitos demógrafos, houve uma razoável desconcentração da população urbana, comandada, em uma parte considerável, pela grande emigração das capitais em direção a outros municípios das Regiões Metropolitanas. O IBGE chamava atenção para a importância da migração intrametropolitana já na década de 70: todas as principais capitais, sedes das RMs, tiveram saldo migratório negativo em relação aos outros municípios. [61]

 

De acordo com a pesquisa de Fausto Brito, Belo Horizonte (BH) não fugiu à regra geral, 154.300 habitantes saíram dela em direção a outros municípios da Região Metropolitana e somente 14.934 se dirigiram a ela. Este saldo negativo em relação a migração intrametropolitana não significou um saldo negativo global. BH teve sua perda intrametropolitana fartamente compensada pelos 601.653 migrantes provenientes de outros municípios do próprio Estado de Minas Gerais. Foram eles os responsáveis pelo saldo migratório positivo global, na década de 70, de 243.366 habitantes. E, neste caso, mais uma vez, a capital de Minas não se constituiu numa exceção, mas sim em mais um caso da regra geral: todas as outras capitais das RMs, também tiveram os seus saldos negativos compensados pela migração intraestadual, ainda que em proporções diferentes.

Até 1930 Belo Horizonte, como centro político do Estado, só polarizava mesmo um espaço econômico que continha as regiões Metalúrgica e Campo das Vertentes, e que se abria ao norte e nordeste do Estado escreve Brito, para quem o crescimento da economia mineira na década de 50 e a ampliação do sistema de transporte, no qual Minas tinha uma posição estratégica, aceleraram as migrações internas no Brasil. Com a construção da ferrovia Vitória-Minas e com a inauguração da rodovia Rio-Bahia abriu-se um corredor de emigração – um verdadeiro corredor de pobreza – pelo qual passaram a maior parte dos emigrantes que vieram para a região de Belo Horizonte ou que foram para outros Estados.

Ainda que limites político-administrativos separem os municípios da RMBH, entre Belo Horizonte e as cidades de Contagem, Betim e Ibirité, à oeste, e entre os municípios de Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Vespasiano, ao norte, há uma intensa interação populacional. No caso dos primeiros, a partir dos anos 40, com a implantação da Cidade Industrial, um corredor migratório se constituiu e consolidou-se com a implantação da Mannesmann, na região do Barreiro em 1953, da Refinaria Gabriel Passos nos anos 60 e da FIAT Automóveis na década de 70. Belo Horizonte está, hoje, em conurbação com Contagem e Betim, incorporando também Ibirité, através da expansão dos loteamentos periféricos e dos precários conjuntos habitacionais. À estes últimos pode ser atribuído o mais recente vetor de expansão urbana ao norte de Belo Horizonte, através da ocupação das regiões da Pampulha e de Venda Nova, e na seqüência, dos municípios de Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Vespasiano, que se tornaram espaços de atração da pobreza. Já ao sul, a expansão urbana em direção ao município de Nova Lima, tem se caracterizado pelos condomínios fechados, ocupados por população de renda mais alta. Esta análise demográfica evidencia que a capital das Minas Gerais continua atraente para os migrantes do interior e de outros Estados. A expansão urbana da capital à leste, ainda que menos significativa do ponto de vista demográfico, reúne novamente ao município de Sabará, o lugar há cem anos emancipado para abrigar a Cidade de Minas, logo em seguida renomeada como Belo Horizonte. [62]

 

A configuração do espaço metropolitano se dá através deste intensa interação populacional estimulada pela periferização da população mais pobre e pela alocação das atividades econômicas. A conurbação é so a expressão espacial da metropolização. Evidentemente, uma metrópole se define, também, por suas funções sociais, políticas e econômicas. Sociais, no sentido da gravitação que exercem, da qual as migrações são a expressão mais marcante, e pelo lugar central que ocupam na difusão cultural. Políticas, na perspectiva de serem centros de poder, onde se localizam as instituições básicas do sistema de governo e da organização da sociedade civil. Econômicas, no sentido de serem o locus de atividades cuja importância são determinantes para a economia a nível regional e nacional.(...) A redução do crescimento populacional de BH, de fato significou um processo de desconcentração urbana, em grande parte favorável a outros municípios da RMBH. Mas o processo de metropolização em nada se arrefeceu, só mostrou com mais clareza o seu lado mais perverso: a metropolização da pobreza. [63]

 

A Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, realizou o 1º Diagnóstico da Área Cultural descobrindo e revelando dados que não costumam fazer parte das estatísticas oficiais, evidencia de que cultura não é apenas uma questão de ver este ou aquele filme, de ir ou não ao teatro mas, sim, um conjunto de comportamentos e atitudes que afetam e determinam o modo de inserção de cada um na comunidade.

 

As pessoas pesquisadas estão claramente sugerindo que a cultura seja tratada do único modo pelo qual deve ser tratada: como um sistema multienvolvente que diz respeito à vida de todos os dias. As respostas obtidas mostram que as pessoas estão entendendo a questão cultural do modo mais sofisticado e legítimo possível, isto é, como o domínio ético por excelência, como o campo daquilo que liga as pessoas na trama da vida social. (...) Uma política cultural é algo que envolve temas de educação, de habitação, de saúde, de urbanização, que se ramifica até atingir setores como o da limpeza das ruas, de transportes públicos dignos, do modo respeitoso de se dirigir um ônibus.(...) As pessoas entrevistadas não gostam de cultura (interpretação imediata extraída das respostas que mostram desafeição por espetáculos de teatro, de dança, livros, idas a bibliotecas, museus, etc.) ou, numa interpretação sem dúvida mais sugestiva, não gostam dessa cultura que está aí e que lhe pretendem impingir-lhes. Mais do que alegar falta de tempo ou de dinheiro, desculpas tradicionais neste campo, admitem sem receio não ter interesse por essa cultura que está aí. [64]

 

          Em Belo Horizonte, a questão parece apontar para uma crescente autonomia da esfera cultural, como enfatizam as teorias contemporâneas sobre a pós-modernidade, que define-se nas relações onde o social e o cultural se imbricam e os espaços do povo negro na cidade estão sendo ampliados.

 

O pós-modernimo contém simultaneamente possibilidades para a recuperação e ampliação de uma política cultural e para a sua neutralização.(...) Com a explosão da cultura em todos os aspectos da vida e a estetização dos domínios social, político e econômico, evocada por Frederic Jameson, vem a oportunidade para uma política cultural de esquerda que se concentre, ao contrário dos marxismos tradicionais, não tanto na vinculação entre as formas culturais e os alicerces socioeconômicos mais “fundamentais” que as determinam e produzem, quanto na investigação de todo o domínio da cultura considerada em si uma forma de prática material. [65]

 

Entretanto, seria ingenuidade considerar que podemos nos tornar livres simplesmente pensando que temos liberdade. Assim “é necessário que estejamos todos preparados para ver o que está escondido para lá da “barreira” oculta e silenciosa das estruturas ou então que estejamos preparados para compreender o alcance das representações que lhe são subjacentes. E isso só é possível quando se confrontam os manuscritos e as fontes de informações impressas antigas com outras modernas que a ciência da história já pôs em relevo, nomeadamente as recolhidas no contexto da oralidade”, ressalta o antropólogo angolano Virgílio Coelho.[66] Já é passada a hora de superar a tendência nos estudos e propostas produzidos até o presente, que põem em relevo um conhecimento geográfico da cidade e do urbanismo relacionados com a Europa apenas. Na geografia da cultura negra Belo Horizonte tornou-se objeto de desejo, possibilidade concreta de abertura aos mistérios do mundo. Numa analogia com as culturas de matriz africana nas quais “o soberano estivesse onde estivesse, reinava sempre no centro do mundo”, os afro-belohorizontinos reafirmam a centralidade de sua cultura, onde quer que estejam.

 

 

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[1]Socióloga e Mestre em Educação pela UFMG; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC Minas; Professora do Departamento de Sociologia da PUC MINAS

[2]LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma economia escravista : Minas Gerais no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1988

[3]LIBBY, Douglas Cole. op.cit. Grifos meus.

[4]BOSCHI, Caio Cesar. O barroco mineiro: artes e trabalho. São Paulo: Brasiliense, 1988

[5]SCHWARCZ, Lilia Moritz.Retrato em branco e negro: jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no final do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987

[6]LANGE, Curt. A música em Minas Gerais no século XVIII do Prólogo ao Archivo de Musica Religiosa de la Capitania Geral das Minas Gerais. Argentina: Universidade Nacional de Cuyo, 1951

[7]LANGE, Curt. op.cit.

[8]MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e colonização em Minas. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974

[9]MONTEIRO, Norma de Góes. op. cit.

[10]GMG/SEPLANO processo de desenvolvimento de Belo Horizonte. Belo Horizonte: PLAMBEL, 1979

[11] O prof. Caio Boschi localizou no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, o Compromisso da Irmandade dos Irmãos Pretos de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia de Nossa Senhora da Boa Viagem, Arraial do Curral del Rei. Ver Fontes primárias para a história de Minas Gerais em Portugal, Belo Horizonte: FJP/CEHC, 1998

[12]PAIXÃO, Marília Andrés. O trabalho artesão em Vila Rica in Revista do Departamento de História. Belo Horizonte: UFMG/FAFICH, 1986

[13]GUIMARÃES, Carlos Magno. Uma negação da ordem escravista: quilombos em Minas Gerais no século XVIII. Belo Horizonte: UFMG/DCP (mimeo.), 1983

[14]BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: memória histórica e descritiva – história antiga e história média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1995 (re)edição atualizada, revista e anotada.

[15] BARRETO, Abílio. op.cit. Grifos meus.

[16] Há, também, um negro não identificado, em trajes civis, na foto da visita às obras da nova capital, pela Comitiva do Presidente Afonso Penna.

[17]BARRETO, Abílio. op. cit. Grifo meu.

[18]BARRETO, Abílio. op. cit

[19]LANGE, Curt. A música em Minas Gerais no século XVIII do Prólogo ao Archivo de Musica Religiosa de la Capitania Geral das Minas Gerais. Argentina: Universidad Nacional de Cuyo, 1951

[20]LANGE, Curt Os músicos mulatos in A organização musical durante o período colonial brasileiro, Coimbra: V Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros, 1966

[21] LANGE, Curt. op.cit. Grifos meus

[22]Crônicas de Alfredo Riancho (pseudônimo de Alfredo Camarate) Revista do Arquivo Público Mineiro, Ano XXXVI. Belo Horizonte,1985

[23] Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzalareconhece a contribuição dos africanos à cultura brasileira, já Caio Prado Júnior considera que o negros foram passivos e submissos e não contribuíram de forma significativa.

[24]Pesquisas recentes desenvolvidas em Angola por antropólogos, lingüistas e historiadores nativos, junto a falantes da língua Kimbùndù, nas províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-Norte, Kwanza-Sul e Malange revelam que Kámùndóngó refere-se a alguém originário da nação Ndòngò. No entanto, o termo Kámùndòngò tem hoje conotação bastante negativa, lá como aqui, assim como no Brasil adquiriram conotação negativa os termos preto, negro, boçal, feitiço, só para citar alguns.

[25]LANGE, Curt. Novas pesquisas em Minas Gerais: Arraial do Tejuco e Vila do Príncipe (1972) in Suplemento Literário do Minas Gerais, numero especial Curt Lange, o descobridor. Belo Horizonte, nº 355, junho, 1973

[26]GROSSI, Yonne de Souza e FARIA, Maria Auxiliadora. A classe operária em Belo Horizonte: 1897-1920 in V Seminário de Estudos Mineiros – A República Velha em Minas(1977). Belo Horizonte: UFMG/PROED, 1982

[27]GROSSI, Yonne de Souza e FARIA, Maria Auxiliadora. op.cit.

[28]SOUSA, Maria Adélia Aparecida de. A identidade da metrópole: a verticalização em São Paulo. São Paulo: Hucitec; EDUSP, 1994

[29]DUTRA, Eliana de Freitas. Caminhos operários nas Minas Gerais: um estudo das práticas operárias em Juiz de Fora e Belo Horizonte na Primeira República. São Paulo: Hucitec/ UFMG/MinC-próMemória, 1988

[30]DUTRA, Eliana de Freitas. op.cit.

[31]Da Caravana Paulista participaram Mário de Andrade, Oswald de Andrade e seu filho Nonê, Tarsila do Amaral, Godofredo Silva Telles, Olívia Guedes Penteados e o franco-suisso Blaise Cendrars.

[32]TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1976. Grifos do autor.

[33] WERNECK, Humberto. O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

[34]BUENO, Antônio Sérgio.O modernismo em Belo Horizonte: década de vinte. Belo Horizonte: UFMG/PROED, 1982. Grifos do autor.

[35] LANGE, Curt. 1951. op.cit.

[36]BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1987

[37]MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro: EDUFRJ/EDUSP, 1994

[38] Ver SODRÉ, Muniz.O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Petrópolis: Vozes, 1988

[39]GOMES, Núbia Pereira de Magalhães e PEREIRA, Edimilson de Almeida.Negras raízes mineiras: os Arturos. Juiz de Fora: MEC/EDUFJF, 1988

[40]GOMES, Núbia Pereira de Magalhães e PEREIRA, Edimilson de Almeida. op. cit.

[41]GROSSI, Yonne de Sousa. Mina de Morro Velho: a extração do homem – uma história de experiência operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981

[42] MARTINS, Leda Maria.Afrografias da memória: o reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza, 1997

[43]MARTINS, Leda Maria. op. cit.

[44]IBGE.O lugar do negro na força de trabalho. Rio de Janeiro: IBGE, 1981

[45] BHABHA, Homi. O terceiro espaço (entrevista a Jonatham Rutehrford) in Revista do Patrimônio, nº 24. Rio de Janeiro: IPHAN, 1996

[46]BHABHA, Homi. op.cit.

[47]ESTANISLAU, Lídia Avelar. Afro-Horizonte: os negros na construção da cidade, comunicação apresentada no IV Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, 1996 e ESTANISLAU, Lídia Avelar. Afro-Horizonte in BH 100 – Suplemento Edição Especial. Belo Horizonte: Secretaria de estado da Cultura de Minas Gerais, dez., 1997

[48]CONNOR, Steven.Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. São Paulo: Loyola, 1992

[49]ARRUDA, Maria A. do Nascimento. Mitologia da mineiridade: o imaginário mineiro na vida política e cultural do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990: “De qualquer forma, a realidade social de Minas no século XIX, encaminhou-se para certa autonomia, fruto do amálgama entre o passado e o presente, que se poderia denominar por mineirismo.(...) A manifestação cotidiana do mineirismo é a mineirice, enquanto um modo de aparecimento das práticas sociais inerentes aos mineiros e que servem para distinguí-los de outros tipos regionais. A mineiridade exprime, em contrapartida, uma visão que se construiu a partir da realidade de Minas e das práticas sociais.”

[50]GUATTARI, Félix. Restauração da cidade subjetiva in Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992

[51]GUATTARI, Félix. Restauração da cidade subjetiva in Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. Guattari apresentou esta comunicação no Colóquio Homem, cidade, natureza: a cultura hoje, promovido pela UNESCO, no Rio de Janeiro, em 1992. O autor apresentou trabalho semelhante com o título de Restauração da Paisagem Urbana, no Seminário de Desenho Urbano em Nagoya, Japão, em 1989, publicada na Revista do Patrimônionº 24, Rio de Janeiro: IPHAN, 1996. A citação é uma mescla das duas traduções.

[52]CONNOR, Steven. op. cit.

[53] Em 1998 foi criada a Secretaria Municipal de Assuntos da Comunidade Negra/ SMACON.

[54]RESENDE, Maria Efigênia Lage de. Uma interpretação sobre a fundação de Belo Horizonte in Revista Brasileira de Estudos Políticos. Belo Horizonte: UFMG, 1974

[55]MELLO E SOUZA, Laura de. Os desclassificados do ouro: pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1986

[56]BORGES, Márcio. Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina. São Paulo: Geração, 1996. Apoio cultural PBH.

[57]MARQUES, Yara Landre e MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo. Metropolização, meio ambiente e qualidade de vida in MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo(coord.). Belo Horizonte: espaços e tempos em construção. Belo Horizonte: CEDEPLAR/PBH, 1994

[58] SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 3ª ed., 1994

[59]HALL, Stuart.Identidade cultural e diáspora in Revista do Patrimônio. Rio de Janeiro: IPHAN, nº 24, 1996

[60] Nelly Richard em Postmodernism and Periphery, Third Text, 2, 1978-1979 chama atenção que algumas formas de descentração pós-modernas podem reproduzir manifestações da hierarquia centro/margem no nível da manufatura cultural e da administração das idéias.

[61]BRITO, Fausto.Belo Horizonte e a expansão metropolitana. Relatório de Pesquisa CEDEPLAR – PBH, (mimeo.), 1996.

[62]BRITO, Fausto. op. cit.

[63]BRITO, Fausto. op. cit

[64]COELHO, Teixeira. A pesquisa de indicadores culturais: audácias e dilemas in 1º Diagnóstico da Área Cultural de Belo Horizonte. Belo Horizonte: SMC/PBH, 1996. Grifos do autor

[65]CONNOR, Steven. op. cit.

[66]COELHO, Virgílio. Os de dentro, os de fora e os outros: análise sucinta de um modelo estrutural de organização estrutural, administrativa e urbana do Reino de Ndòngò, desde a sua fundação até fins do século XVI. Angola: Comité Executivo da Associação de Antropólogos e Sociólogos de Angola (mimeo.), 1996